Vaidade


A vaidade me fugiu ao tato. A barba mal feita, o cabelo bagunçado, os ombros caídos, as costas curvas, as roupas fora de moda, o coração despedaçado. O espelho virou um incrível bicho de sete cabeças, uma hidra que não importa o que eu faça volta duas vezes pior. Assim como tudo que me vem em mente, o fundo do poço, com o baque duro quando eu chego, é cruel com meu corpo e com minha mente, eu não vejo muito além de imagens distorcidas do passado tão distante de alguns anos atrás. Assim como qualquer coisa que eu faça para sair dessa tamanha foça... ela volta duas vezes pior para mim e meu sofrimento apenas aumenta. Meu sofrimento é apenas uma bolha de sabão soprada por aqueles lábios delicados e pouco carnudos, a melhora breve é rápida e eu quase não percebo. A vaidade também me fugiu aos olhos, bonito, feio... o que são se não mais um monte de baboseira especuladas por um padrão social que não me levara simplesmente nada. A beleza se tornou aquilas coisas que me atraem por poucos segundos, as coisas que me fazem ser menos infeliz. Como quando acordo sem lembrar do meus sonho, que são manhãs raras.
Acordar sem lembrar do que sonhei é a única coisa que torço para o dia. A única coisa que eu contemplo e adoro como os antigos adoravam seus deuses e deusas. Dizem que toda beleza que se pode imaginar se aparece em sonhos. Pois eu as vejo todas noites, e quando acordo sem lembrar daqueles sonhos por alguns segundos eu me sinto imóvel, sem vida e sem sentimentos, é adorável e belo... por alguns segundos, então a dor volta com as imagens distorcidas do que realmente é belo. Do que realmente eu pude chamar de belo.
Metamorfose fraca que se passa na minha cabeça, olho no espelho e vejo uma pessoa estranha, mas logo reconheço, a figura não tem mais a aparência jovial e bem cuidada do inicio do sofrimento, quando eu ainda esperava ouvir "Ah! Te procurei, mas não te achei.", mas o sofrimento ainda é o mesmo, as marcas cicatrizadas e o olhar penoso ainda são os mesmos, só assim reconheço que aquele que compreendo os olhos, pois sofro do mesmo mal, é apenas eu.
Oh! Vaidade que me dói quando vejo nos mais próximos, tão pomposos e cheios de si. Confiança e auto-estima que deixei de ter a tempos. Vaidade maldita que me pedem para ter. Meu corpo esquelético, invejado por anorexias e bulímicas é mantido por um constante estado de sofrimento, marcado a ferro por memórias, que me esfaqueiam pelas costas nos momentos mais distraídos de meus devaneios. Não sou mais um homem. Sou apenas uma alma sem corpo que vaga sem matéria física.

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