... embora daqui.


Eu menti tantas vezes, menti todas vezes na verdade. Escondendo eu mesmo do toque assombroso da minha salvação. Os momentos que eu poderia ter dito a verdade, eu preferi colocar a mão no revolver. Eu preferi pular do penhasco. A rede que esconde as verdades sobre mim foram todas abertas... meu olhos embaçados, minha respiração ofegante... é difícil entender o porque eu preferi te ver tão longe, quando na verdade eu queria que a verdade fosse dita, que minha alma abandonasse essa escuridão que de nada me adianta viver com. Meus escrúpulos, a leitura diária dos livros que me levam para o estado imaterial da solidão depressiva. Verdade que só tenho eles, verdade que só tenho o sentimento de vazio, verdade também que a chuva lá fora não se compara com as gotas dentro de mim que, sem pestanejar, derramam e imundam meu corpo de tal maneira que o próprio sangue escorre pelas cicatrizes no peito para dar lugar ao sabor salgado de lágrimas indelicadas.
Chorar virou algo tão rotineiro que quando percebem que uma lágrima rola meu rosto depois de me afogar as tais lembranças eu se quer as enxugo. O corte fundo me deixou perplexo... já não te escondo como escondia antigamente... já não uso meias palavras para fingir que não é de você que falo. Oh! Querida Morte, como você me faz falta dentre qualquer outra flor que apodrece dentro do jardim desse meu mundo. Quantas desgraças já não aconteceram? Quantas flores estragadas estão aqui nesse meu jardim de miséria! E eu só olho para aquela que você plantou, desejando que volte e me leve embora, desejando que faça seu trabalho completo desta vez.
Eu menti muitas vezes para esconder esse sentimento, mas agora me arrependo e não ligo de ter minha cabeça decepada por suas belas mãos, todos e qualquer outro braço parece frio e congelante comparado ao calor dos seus frios braços que eu costumava esquentar nos ventos do Outono, que já eram frios, próximos do Inverno escaldante que nunca chegou. Sua ausência friorenta apenas causou o maior congelamento de meu corpo, o congelamento da minha arrogância, o congelamento de tudo aquilo que eu fui... Transformando tudo em gelada depressão... Espero que o sangue não me jorre tanto... não quero desmaiar... ainda quero te ver antes que me leve embora daqui.

Vaidade


A vaidade me fugiu ao tato. A barba mal feita, o cabelo bagunçado, os ombros caídos, as costas curvas, as roupas fora de moda, o coração despedaçado. O espelho virou um incrível bicho de sete cabeças, uma hidra que não importa o que eu faça volta duas vezes pior. Assim como tudo que me vem em mente, o fundo do poço, com o baque duro quando eu chego, é cruel com meu corpo e com minha mente, eu não vejo muito além de imagens distorcidas do passado tão distante de alguns anos atrás. Assim como qualquer coisa que eu faça para sair dessa tamanha foça... ela volta duas vezes pior para mim e meu sofrimento apenas aumenta. Meu sofrimento é apenas uma bolha de sabão soprada por aqueles lábios delicados e pouco carnudos, a melhora breve é rápida e eu quase não percebo. A vaidade também me fugiu aos olhos, bonito, feio... o que são se não mais um monte de baboseira especuladas por um padrão social que não me levara simplesmente nada. A beleza se tornou aquilas coisas que me atraem por poucos segundos, as coisas que me fazem ser menos infeliz. Como quando acordo sem lembrar do meus sonho, que são manhãs raras.
Acordar sem lembrar do que sonhei é a única coisa que torço para o dia. A única coisa que eu contemplo e adoro como os antigos adoravam seus deuses e deusas. Dizem que toda beleza que se pode imaginar se aparece em sonhos. Pois eu as vejo todas noites, e quando acordo sem lembrar daqueles sonhos por alguns segundos eu me sinto imóvel, sem vida e sem sentimentos, é adorável e belo... por alguns segundos, então a dor volta com as imagens distorcidas do que realmente é belo. Do que realmente eu pude chamar de belo.
Metamorfose fraca que se passa na minha cabeça, olho no espelho e vejo uma pessoa estranha, mas logo reconheço, a figura não tem mais a aparência jovial e bem cuidada do inicio do sofrimento, quando eu ainda esperava ouvir "Ah! Te procurei, mas não te achei.", mas o sofrimento ainda é o mesmo, as marcas cicatrizadas e o olhar penoso ainda são os mesmos, só assim reconheço que aquele que compreendo os olhos, pois sofro do mesmo mal, é apenas eu.
Oh! Vaidade que me dói quando vejo nos mais próximos, tão pomposos e cheios de si. Confiança e auto-estima que deixei de ter a tempos. Vaidade maldita que me pedem para ter. Meu corpo esquelético, invejado por anorexias e bulímicas é mantido por um constante estado de sofrimento, marcado a ferro por memórias, que me esfaqueiam pelas costas nos momentos mais distraídos de meus devaneios. Não sou mais um homem. Sou apenas uma alma sem corpo que vaga sem matéria física.

Pequeno fim.


Os dias parecem perfeitos até eu me lembrar dela. As noites parecem tranquilas até que minha consciência dói, por causa da beleza inconfundível que conheci em seus traços. A facilidade de como toda alegria desaparece, percebendo só então que tudo não passou de mera ilusão. As tentativas de abrir um buraco no meu peito para representar o que sinto, ou talvez o que não sinto, já que tudo não passa de vazio e um profundo buraco.
A contagem simples de todas vezes que esse pensamento de morte veio à minha cabeça, estão afetando a matemática da minha existência, agora, depois de você, tendo apenas a deixar de existir. Faz frio aqui onde estou, faz frio aqui sem você, me perdoe por não estar presente no seu viver, isto de fato também me atormenta, saber que possivelmente não sofro sozinho, mas faz tanto tempo, faz tantos anos.
Apenas diga o que silenciamos, apenas construa de volta toda nossa mesclagem perdida quando deixamos de trocar olhares, até hoje eu não esqueço seu abraço. Até hoje não te esqueço e escrevo minhas cartas para que um dia, cujo nunca virá, você possa finalmente entender que o motivo da minha dor e não te ter.
 
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