Isto não é um estado.


Acredito profundamente que não seja exatamente um estado, mas algo maior que isso. Com toda certeza é um fase, com absoluta certeza isso vai passar. Como todas as coisas que aqui passaram.Eu mesmo já passei, eu mesmo já morri e não mais sou quem um dia fui. De maneira tão conturbada eu já passei por todos os lugares que tive que passar, "sem arrependimentos", é como me disseram para dizer quando eu passei por outros países quaisquer. O que vale é conhecer, o que vale é ter experiências, afinal não se pode dizer que não gosta de algo sem ter provado, certo? Mas aqui estamos, nesse patético blog, nesse patético texto dizendo que quanto mais aprendo sobre as pessoas, mais as quero longe de mim, distante de tudo que pertence ao meu ser.
A sociedade me fez existir, me obrigou usando suas mais mortais torturas, me tirou de casa e me levou para os becos sombrios do amor e das doenças que se pode pegar com as putas da avenida Vai-Se-Fuder. A sociedade me tirou do meu berço de sofrimento, me tirou o cobertor da solidão e o travesseiro coberto por minhas lágrimas e sangue.
Agora sou obrigado a ver. Obrigado a me deparar com meus amigos, todos falsos, todos apenas máscaras com preenchimento de algodão.
Eu digo mais uma vez, mas eu me lembro bem, quando comecei a me matar. Quando comecei a me cortar, quando comecei a tirar de mim toda vida que habitava meu peito. Eu estava lá, sozinho, rodeado de todas aqueles manequins ocos e incapazes de interagir de maneira natural. De alguma forma eles chegam até a mim. De alguma maneira esses demônios chegam até a mim e me humilham, me banalizam, me agridem. Veja bem, não sou aquele cara que vai seguir em frente. Veja bem mesmo, pois não é todo dia que se pode observar um suicídio de tão perto.
Hoje eu mal sei quantas vezes fui assistido enquanto a morte me vem em partes. Acredito que isso não seja um estado. Sei que vai passar. Sei que tão logo as coisas ão de melhorar para novos demônios aparecerem, para novos demônios fazerem o que estes seres fazem.
Cá estou, novamente iludido, novamente persuadido pela ilusão de que algum ser poderia ser de alguma forma melhor do que o previsto. Não estou decepcionado, eu sempre soube que que o caráter não era uma coisa positivo nestas figuras. Mas que opção eu tenho? A vida me tirou de meu berço escuro, me tirou de toda dor, para sofrer por outros motivos.
Agora eu vejo essas árvores de plástico, vejo cada movimento bem ensanhado. Estou cansado. Estou realmente distante de toda essa abundancia de mentiras. Talvez eu morra mais uma vez, mais um suicídio para registrar neste blog. Mas talvez, somente talvez, eu tenha realmente mudado. E tenha ultrapassado o pequeno véu da morte. Aquele que separa o suicida do homicida.

Me pergunto constantemente porque ainda não morri.

Cansado


Não era exatamente o suicídio que eu pretendia. Veja bem, eu não tenho exatamente uma vida ruim. Não passo fome, não sofre de qualquer mal continuo que afete minha sanidade ou qualquer coisa do gênero. Eu tenho absolutamente nada. Nenhum bem, nenhum mal.
Como eu ia dizendo, morrer não é a prioridade, mas eu cansei de querer mudar. Cansei de acordar todos os dias desejando fazer algo diferente. Cansei de acordar desejando que aquele meu amor deu certo, desejando que o trabalho fique confortável como prometeram no inicio da minha vida. Cansei de mudar de foco nos estudos. Cansei de trocar de casa, cansei de trocar minha casca. Nunca foi meu objetivo o suicídio. Eu nunca pensei realmente em me matar, apesar do constante desejo de parar essa linha existência tão ínfima. Eu não queria realmente cair no chão depois de alguns minutos em queda-livre. Mas a minha vida, a minha vida e tudo que gira em torno dela me leva pro décimo quinto andar. Tudo relacionado a minha pessoa, amizade, amor, trabalho, família. Tudo. Eu não sei o que da certo, eu não sei o que me faz parar de andar no parapeito, porque eu nunca sai de lá afinal de contar. Desejando, esperando o maldito vento Oeste me empurra para minha queda livre para o paraíso de não existir, assim como o fez com Jacinto com o disco. Porque não posso ser eu agraciado com a mesma graça que os camaradas do cemitério da esquina? Abençoado pela divina dádiva de não mais existir, esquecidos em um leito abaixo do chão. Claro que eu não quero morrer, mas o ar que ocupa o espaço dos quinze andares me chama para um abraço. O único abraço verdadeiro e sincero que alguém como eu poderia ter. O único abraço sem falsidade que eu poderia ter é o do chão, me encobrindo, esmagando toda minha pútrida existência diante dos olhos daqueles falsos que me assombram, diante de olhos humanos.
E é assim que eu vou morrendo, contemplando minha longa queda, minha divina comédia assistida por mim mesmo. Já que eu insisto em observar minha dor e correr para abraçar todas essas espinhosas rosas.
Eu não sou amado, nunca serei. Morrerei sozinho, porque uma hora as feridas cicatrizam e as pessoas abandonam o remédio que me tornei.

O Fogo e o mar


Toda aquela chama ardia em meu peito, eu não fazia ideia de quem eu era, de onde eu estava. O álcool apenas aliviava o frio gerado por aquela infinita chama que cobria meu corpo.
Esta ali apenas eu e a lembrança, eu e minhas pequenas lágrimas que não paravam de jorrar eloquentemente pelas minhas bochechas. Eu e o frio desértico da praia noturna. Minha amado segurava-me pelos cabelos, em meio a toda escuridão e embaçar dos olhos eu podia ver aquela escultura em chamas, parte humana, parte divina que me levava, eu sabia, para a morte. Então lá estava eu, minhas lágrimas e os ventos frios a tentar me consolar, até mesmo o mar me chamava, implorando para que eu acabasse com aquele sofrimento enquanto que água fervendo descia sobre meus olhos derretendo minha alma. Lágrimas fervidos pelo teu cabelo e alma, que mesmo bondosos, estraçalhavam minha pele com sua chama, me lambendo cada parte do meu ser.
Acostumado com a miúda dor de uma vela, jamais poderia imaginar que teu incêndio contribuiria para minha morte precoce, com toda tua brancura vazia e tristeza sem fim. Carregando na cabeça a tocha que me atormenta e me mata cada dia mais. Me levando hoje para esse abismo da escuridão. Entre eu e o mar existe apenas você. Que insiste em atear fogo na minha já cremada alma e depois ir embora. Quantas mais fogueiras há de me por até que me permita morrer em teus braços, quantas mais queimaduras serão precisas para enrugar-me à velhice e trazer para mim teus lábios eternos. Devo eu adiar o meu dia? Devo eu finalmente entrar no mar?
Mas até o mar você queimou, meu mar de álcool, meu sagrado mar de Rum, você também ateou fogo nele, sobrando cinzas e única e somente tua imagem no pandemônio de minha ridícula vida cheia de caos e infelicidade predominante.
Eu sinto a areia remoer meu braço, meu pescoço e talvez as minhas costas. Sinto a areia torcer-me o pescoço enquanto o mar prende meus pés para que eu não me debata. Minhas mãos estão firmes em teus cabelos, queimando e ficando negras. Pois então não consigo me levantar, não sei se por causa do álcool ou por causa do peso em meu coração. Não consigo respirar, também, não sei se por causa do mar entrando em meus pulmões ou se por causa de você.
Juro.
Não sei mais quem sou. Senhor, dono, de todas as criaturas geladas. Eterna alma deformada sem vaidade ou sensibilidade. Eterno ser sem existência. Apenas um fantasma vazio... que se enche com cada gota da tua chama, que se encorpora no mais doce amante apenas para beber do teu mel e ter os lábios encontrando todos os teus lábios. Escravizado pelas formas que o fogo cria e com seu dançar, construir uma ponte. Uma ponte para o precipício suicídio já que como todos os seres que se passam pela minha vida, não existe.

Bêbado de novo.


Eu estou sozinho. E isso nunca vai mudar.

Meio verdadeiros.


É um pouco estranho o modo como fui sucumbido ao estado de escravo do amor. O modo como passei a observar a estrutura dos teus atos e passei a ignorar os detalhes da vida alheia, que até alguns dias antes de te conhecer de verdade pareciam tão mais interessantes do que viver minha própria vida.
Esse meio beijo que você me dá, esse meio toque que pesa contra minha pele, esse meio abraço que me conforta, esse meio você que me rodeia e sufoca com as imagens de nós dois em um dia chuvoso.
Essa vontade de não te largar mais sem nunca ter te pego nos braços de verdade. Me atormenta até ouvir tua respiração por perto, o calor da tua pele tão próximo que o cheiro do teu shampoo afoga meu pulmão em uma pneumonia de prazer mórbido, esqueço até de bombear oxigênio para o cérebro e em segundos vou de um frio intelectual para adolescente irritante, rastejando a alma que me restou para tuas meias cantadas que chegam aos meus ouvidos com impacto anormal até mesmo para os deuses que habitam teus cachos que param suas danças ao redor de fogueiras para ver meu encanto abobado quando você passa pela vila dos mortais.
Os elfos que perseguem teu brilho não são páreos para acompanhar a velocidade a confusão que você me trás no meio fluxo de sentimentos que você faz questão de transmitir. É perdido em teus encantos e desencantos que eu abandonei a solidão e carência para o ninho de anjos no teu colo.
Lá estou eu, poluindo as ramificações do paraíso que você montou nesses últimos anos. Não é difícil ver nossos lábios se encontrando, nossas mãos se aproximando, nosso peito arfando só de estarmos um do lado do outro. Tudo nesse meio de meios que eu tenho sem nunca poder usufruir. Esse amor negado por nós mesmos diante de uma cadeia de dnas não resolvidos, seres distorcidos, dos quais você os chama pelo nome, surgem sem o menor pudor, destruindo toda a ilusão que criamos, todo o casamento de mentes que podemos criar apenas observando um ao outro.
Não da para contar quantas vezes já te vi olhando para mim, até mesmo porque estamos sempre nos olhando, mesmo quando nos forçamos não gostarmos um do outro, estamos ali, encarando um ao outro diante do abismo de vida que levamos, desejando de algum modo pularmos juntos e dar as mãos no meio do caminho para em fim nos completarmos, mas lá está você com tuas criaturas, lugar do qual nunca deveria ter entrado, dando meio que um olhar para mim, que estou no teu habitat natural, te esperando e sabendo que você não vai vir, mesmo que tenha imensa vontade.
O vento gelado após o toque ardente do teu corpo nu, já me perdi a muito tempo nesses teus climas meio verdadeiros.

Desabafo


Mais uma vez bêbado, descobrindo mais uma vez que o caminho é único para uma mesa de hospital, para um coma sem visitas.
Para morte infinita sem velório. Para a dor solitária da existência que não deveria pertencer a qualquer pessoa, nemmesmo a mim, mas aqui estou, declarando mais uma vez que estou condenado a morrer sozinho.

 
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