Toda aquela chama ardia em meu peito, eu não fazia ideia de quem eu era, de onde eu estava. O álcool apenas aliviava o frio gerado por aquela infinita chama que cobria meu corpo.
Esta ali apenas eu e a lembrança, eu e minhas pequenas lágrimas que não paravam de jorrar eloquentemente pelas minhas bochechas. Eu e o frio desértico da praia noturna. Minha amado segurava-me pelos cabelos, em meio a toda escuridão e embaçar dos olhos eu podia ver aquela escultura em chamas, parte humana, parte divina que me levava, eu sabia, para a morte. Então lá estava eu, minhas lágrimas e os ventos frios a tentar me consolar, até mesmo o mar me chamava, implorando para que eu acabasse com aquele sofrimento enquanto que água fervendo descia sobre meus olhos derretendo minha alma. Lágrimas fervidos pelo teu cabelo e alma, que mesmo bondosos, estraçalhavam minha pele com sua chama, me lambendo cada parte do meu ser.
Acostumado com a miúda dor de uma vela, jamais poderia imaginar que teu incêndio contribuiria para minha morte precoce, com toda tua brancura vazia e tristeza sem fim. Carregando na cabeça a tocha que me atormenta e me mata cada dia mais. Me levando hoje para esse abismo da escuridão. Entre eu e o mar existe apenas você. Que insiste em atear fogo na minha já cremada alma e depois ir embora. Quantas mais fogueiras há de me por até que me permita morrer em teus braços, quantas mais queimaduras serão precisas para enrugar-me à velhice e trazer para mim teus lábios eternos. Devo eu adiar o meu dia? Devo eu finalmente entrar no mar?
Mas até o mar você queimou, meu mar de álcool, meu sagrado mar de Rum, você também ateou fogo nele, sobrando cinzas e única e somente tua imagem no pandemônio de minha ridícula vida cheia de caos e infelicidade predominante.
Eu sinto a areia remoer meu braço, meu pescoço e talvez as minhas costas. Sinto a areia torcer-me o pescoço enquanto o mar prende meus pés para que eu não me debata. Minhas mãos estão firmes em teus cabelos, queimando e ficando negras. Pois então não consigo me levantar, não sei se por causa do álcool ou por causa do peso em meu coração. Não consigo respirar, também, não sei se por causa do mar entrando em meus pulmões ou se por causa de você.
Juro.
Não sei mais quem sou. Senhor, dono, de todas as criaturas geladas. Eterna alma deformada sem vaidade ou sensibilidade. Eterno ser sem existência. Apenas um fantasma vazio... que se enche com cada gota da tua chama, que se encorpora no mais doce amante apenas para beber do teu mel e ter os lábios encontrando todos os teus lábios. Escravizado pelas formas que o fogo cria e com seu dançar, construir uma ponte. Uma ponte para o precipício suicídio já que como todos os seres que se passam pela minha vida, não existe.
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