Cansado


Não era exatamente o suicídio que eu pretendia. Veja bem, eu não tenho exatamente uma vida ruim. Não passo fome, não sofre de qualquer mal continuo que afete minha sanidade ou qualquer coisa do gênero. Eu tenho absolutamente nada. Nenhum bem, nenhum mal.
Como eu ia dizendo, morrer não é a prioridade, mas eu cansei de querer mudar. Cansei de acordar todos os dias desejando fazer algo diferente. Cansei de acordar desejando que aquele meu amor deu certo, desejando que o trabalho fique confortável como prometeram no inicio da minha vida. Cansei de mudar de foco nos estudos. Cansei de trocar de casa, cansei de trocar minha casca. Nunca foi meu objetivo o suicídio. Eu nunca pensei realmente em me matar, apesar do constante desejo de parar essa linha existência tão ínfima. Eu não queria realmente cair no chão depois de alguns minutos em queda-livre. Mas a minha vida, a minha vida e tudo que gira em torno dela me leva pro décimo quinto andar. Tudo relacionado a minha pessoa, amizade, amor, trabalho, família. Tudo. Eu não sei o que da certo, eu não sei o que me faz parar de andar no parapeito, porque eu nunca sai de lá afinal de contar. Desejando, esperando o maldito vento Oeste me empurra para minha queda livre para o paraíso de não existir, assim como o fez com Jacinto com o disco. Porque não posso ser eu agraciado com a mesma graça que os camaradas do cemitério da esquina? Abençoado pela divina dádiva de não mais existir, esquecidos em um leito abaixo do chão. Claro que eu não quero morrer, mas o ar que ocupa o espaço dos quinze andares me chama para um abraço. O único abraço verdadeiro e sincero que alguém como eu poderia ter. O único abraço sem falsidade que eu poderia ter é o do chão, me encobrindo, esmagando toda minha pútrida existência diante dos olhos daqueles falsos que me assombram, diante de olhos humanos.
E é assim que eu vou morrendo, contemplando minha longa queda, minha divina comédia assistida por mim mesmo. Já que eu insisto em observar minha dor e correr para abraçar todas essas espinhosas rosas.
Eu não sou amado, nunca serei. Morrerei sozinho, porque uma hora as feridas cicatrizam e as pessoas abandonam o remédio que me tornei.

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