Especial


A uns dias atrás eu me senti especial. Senti um fervor no peito e um vazio no estomago. Era o dia que eu ganhava finalmente um motivo para sorrir. As cores pendiam para uma radiante alegoria desconhecida e os objetos, que eram inanimados até então, começavam o bailar esquizofrênico, desconhecido por todos, exceto por mim. Pensamentos perdidos passavam pela minha mente frágil, eu me sentia tonto e confuso, eu era especial de estar ali, eu era a pessoa mais importante do mundo. Os segundos seguidos após aquele breve minuto que eu pensei ser feliz, aqueles segundos mostraram tudo que eu realmente era.
Todo aquele sentimento especial, toda aquela alegria e euforia momentânea foi na verdade eu morrendo, nunca pude imaginar que eu ficaria feliz com o simples fato de estar morrendo. Escondido atrás daqueles sorrisos que nunca foram meus. Até eu me enganei, até eu achei que era feliz. Dissimulei para mim mesmo, menti tão bem que até eu acreditei que poderia ser feliz. Menti tão bem para satisfazer seus desejos. Toda aquela felicidade se desvairando junto com as gotas salgadas que percorrem minha alma. O vazio infinito percorre com fervor todas as mentiras que contei sobre meu estado. Sinto-me silenciado por uma força maior que agora me impede de mentir, uma dor colossal que aflige meu peito internamente como uma faca que percorre de dentro para fora todos os momentos da minha história. Eu lembro de quando ela ainda me abraçava e eu me sentia vivo depois de ter morrido tantas vezes. Eu ainda lembro quando ela reclamava dos meus feitos e me mostrava as melhores opções. O sangue, o suor, as lágrimas... nunca vão compensar a saudades daqueles momentos elegantes. Nunca vão compensar as pequenas coisas que passei.
Sua ausência... as lembranças sobre você... os dias... as noites... os momentos, as musicas e as piadas... os sorrisos, as feições tristonhas... suas mudanças de visual e de humor... seu colo... seu ombro... seu cabelo, o cheiro de chocolate... seus olhos vazios... sua facilidade para sorrir... suas definições. Suas roupas e aquele casaco apertado. O bolo de aniversário que eu nunca comi. Os bolos de aniversário que nunca mais tive. O cafuné que nunca mais vou ter e o desafio de te convencer e conquistar todo dia... definições e mais definições. Lembranças e mais lembranças. Você não está mais aqui para jogar o cabelo no meu rosto. Você não está aqui para descobrir meu ponto fraco e errar pra eu fingir que você acertou de novo. A gente não vai mais deitar... eu não vou mais deitar com a cabeça sobre você pra esperar a chuva cair. A gente não vai mais se molhar enquanto reclamamos das pessoas ao redor. Eu não vou mais passar enfrente a porta pra te ver e quando você me enxergar, sorrir e desviar o olhar. Não vou mais ter que fingir gostar das conversas irritantes das suas amigas. Colocar a mão nos seus bolsos... ato que repito até hoje nos braços que te procuro. Suas mãos sempre quentes... gelando sobre o toque da minha. Seus lábios semi-cerrados...
Eu fui especial, eu senti a felicidade. Mas hoje posso apenas mentir e fingir muito bem o que um dia já senti. Não vou chorar. Não vou sorrir...
Porque você me ensinou como é sorrir de verdade.

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