Sentado na sala, comendo chocolate, escorreguei para a outra ponta do banco. O teto parecia familiar com aquelas manchas cinzas. O rosto dela se formava conforme eu me despedia de um pedaço de chocolate. As cores ficavam mais fortes enquanto eu lembrava das vezes que ela sorria e soprava beijos para mim. O tempo parecia curto enquanto eu vivia uma vida, o ar me faltava quando via o rosto dela indo embora. Não lembro se quer o nome dela, mas é ela quem me faz querer sentir de novo o gosto do chocolate. O paladar fica doce e eu olho pro meu lado, me revolta quando não a vejo. Percebo que estou sozinho, meu rosto se cora envergonhado das coisas que fiz para que ela partisse da minha lembrança. A luz dentro da sala é fraca e o sofá me aconchega nos braços dela. Eu prefiro não olhar para os lados sabendo que não a verei. Com meus olhos fechados parto para outra dimensão onde eu corro pelo campo. Sei que ela não está do meu lado e meu caminho é longo, mas prefiro fingir que seguro a mão dela. Sua mão fica mole, lembro de ser macia e suave, lembro dos seus dedos pousado nos lábios. O papel amassado e o chocolate batido escorregam aos poucos pela minha mão, meus olhos se abrem com uma gota correndo meu nariz, de novo o vazio do sofá invade meus olhos.
Percebo que é preciso mais do que o que posso fazer para esquecê-la. É preciso ser alguém que nunca serei enquanto o rosto dela formado a frente dos meus olhos diz que aquilo é só uma lembrança e ela não vai voltar. Ainda como o chocolate que perdeu o gosto e, amassado, não me agrada como antes. O gosto doce não vinha do chocolate e sim do jeito que ela me tratava enquanto sorriamos com brincadeiras. Sabia que seria mais uma noite que não dormiria e a esperaria sem ter volta. São muitas as fotos que eu tenho na memória e pouca a vontade de continuar. O chocolate fica cada vez mais difícil de ser engolido enquanto, derretido escorrega pela minha mão acompanhado das gotas que escorregam sobre a maçã de meu rosto.
O desejo de rever os olhos brilhantes com aqueles pequenos defeitos na face são maiores que minha força de vontade, luto para desistir, mas sei que não é o suficiente. Me rendo ao vazio do outro lado do sofá. Me abraço à ausência de vida enquanto o resto do chocolate escorre no chão. Não posso mais ouvi-la dizer que me ama, não posso mais dizer o quanto a amo ou ouvi-la cantar desafinadamente. Temo que o vazio me mate, mas o frio absoluto que derrete o chocolate é o que tenho agora sentado nessa sala com o rosto molhado.
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