Mãe Solidão


Me peguei pensando em alguém que está muito distante e acabei percebendo que todas pessoas estão muito distantes, o mundo já não gira em torno de mim e o frio aperta meu coração com as duas mãos. Me pergunto onde foi parar todo mundo. Onde foi que eu vim parar. A solidão tem uma sala enorme e escura. Meu corpo já nem se meche por vontade própria, deixo meus ossos quebrados e músculos pútridos para que o mestre dos fantoches me guie com aquelas mãos escuras e pequenas. A única paisagem que observo é o chão que tira toda minha percepção de vida ao meu redor e a sala enorme deixou o ar escapar tão rápido, ou foi o próprio ar que também está distante. Não sei aonde vim parar, o frio e o escuro da noite me aconchegaram no colo da solidão, que arrancou meu coração partindo-o ao meio. Também não sei onde ela foi parar. Espero na beira da praia o barco dela se aproximar, mas eu e meu mundo não brilhamos mais.

As vezes acho que foi apenas algumas horas e ela logo vai voltar. Mas a solidão cochicha no meu ouvido quantos anos se passaram e acaricia meus machucados. A cicatriz é grande e longa. O frio a faz arder me lembrando do dia em que pulei do prédio. Os ossos quebrados também gritam, o nome parece o dela, mas a dor as vezes engana meus ouvidos que, apodrecidos, não identificam alguns sons que costumavam ouvir quando ela ainda olhava para mim sorrindo. O desconhecido me leva para ruas onde as mulheres passam, todas essas mulheres são elas, mas nenhuma delas é ela. Mais confuso fico com o tempo, os olhos velhos e secos observam o andar e o sorriso dela em imagens nas árvores. Sentado ali eu espero meus velhos amigos voltarem ou novos aparecerem. Mas o ar só some e as imagens que meu cérebro produzem ficam só na imaginação que se torna quase fértil no ponto em que cheguei.

A piscina é funda e eu não vou voltar a tempo. O ar vai sumindo assim como as imagens. Eles não me querem mais. O desespero bate e meus ossos quebrados pensam em se debater, a dor aguda começa quando eu faço esforço pra abraçá-la na minha frente. Meus amigos estão voltando. E eles jogam flores encima do meu corpo. Minhas lágrimas são invisíveis enquanto se misturam na água com cloro, até mesmo o escuro está indo embora. A solidão partiu deixando o rastro de agonia naquela última bolha que sobe pra superfície enquanto o cérebro vai apagando.

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