Eu sei que meu coração está fraco, sei que é preciso de mais um pouco para que ele pare, então farei isso como deve ser feito, sem dignidade e sem honra. Cuspindo aquilo que comi toda minha vida, vomitando todos sentimentos que tenho por você na cara dos que me rodeiam, sei que nenhum deles entende porque faço isso e muito até acham que não o planejei. Mas a minha morte foi muda, sem vexames, sem vergonha... apenas deitado junto da areia que me abraçava com o vento gelado que vinha do mar. Deitado naquela cama de areia e deitado na cama do meu quarto. Tão diferentes, porém tão iguais. Sentindo o abraço do vento frio, sentindo o abraço da escuridão que aos poucos escurecia minha visão perturbada pelo álcool.
Escuridão suprema.
O momento em que eu deixei de existir. Não foi como um sono profundo, não vi luzes, não vi nada. Apenas deixei de existir e não queria mais voltar, o vazio tomando conta de todo o meu corpo, o silencio tomou conta de tudo. Minhas preocupações sumiram, meus pensamentos ruins não eram mais ruins, meu corpo pútrido não sentia mais dores, o doce e esplendido puro morrer. Então... aquele mar veio até minha existência, o frio eminente voltou ao meu corpo e eu chorei, chorei para poder continuar no estado que eu deveria permanecer, o estado que é meu por direito, o estado em que ninguém poderia me tirar. E ali, no mu leito, ninguém esta comigo. A obrigação de poucos mantinha alguns pares de olhos em mim. Que deitado na minha cama sentia toda aquela dor voltar. Olhos lacrimejando por eu ter voltado, olhos lacrimejando de felicidade por terem conseguido destruir mais de mim. Olhos que choravam agora de alegria, cantando e pulando por eu ter que sofrer mais. Meus olhos miúdos e chocados mal se mantinham firmes com todas aquelas agulhas em meu braço, sei que fizeram de tudo para eu sentir mais dor e plenitude. Sei que ninguém entenderá a minha dor, pois eu não sou como um homem. Não sou como uma mulher. Eu não sou nada. Nada além de nada. Coração dolorido e abandonado. Mas a primeira coisa que pensei foi em você... você que não me quer mais, você que me matou, você que nunca mais vai voltar. Hoje não importa, aquele dia não importa. Eu já morri quando tiraram você de meus olhos.