Deixa o buraco queimar que é melhor pra nós dois.


Hoje mal pude me identificar, mal pude ficar de pé. A felicidade veio a tona, tomando meu peito, eu até ouvia meu coração bater. A felicidade foi embora na mesma velocidade. Meu dia mais ensolarado, mais encantado... eu o observei queimar e se desintegrar deixando um grande rastro de fumaça. Mal lembro o nome dos meus amigos e as idades de minhas irmã. Nem mesmo quem eu sou eu sei. O lixo andando lá fora pela rua, o vento faz rodar a poeira e eu não sei o nome de nenhum deles. Eu lembrava do brilho no olhar dela, seu corpo magro e pequeno encolhido no meu corpo, tão frágil. A grama alta e os prédios altos do outro lado da rua, eu a apertei muitas vezes para acreditar que era real. Eu me senti feliz, mas a felicidade tem movimentos traiçoeiros, iludido por uma imagem na minha mente. Crente de uma impureza. Esperando ser salvo, quase sem ar. Vejo agora o abismo imundo e sujo onde ficava a minha praça favorita. Eu não reconheço os corpos queimados nem os cenários distorcidos, eles eram bonitos, mas não eram reais. A felicidade correu de mim como a água corre para o mar. Eu não atraio mais eles. Minha feiúra é ímpar. Com desprezo ela corre de mim. Ainda sinto o amor dela e o cheiro doce dela, mudei minha vida e minha cultura por uma mentira. Um mentira real. Uma realidade que não consigo abandonar. Com tanto remédio eu espero voltar a dormir e sonhar novamente com isso. Esse sabor doce e molhado que rodeia meus lábios. Vejo um buraco de uma bomba nuclear onde ficava minha felicidade. Escurecida e nublada agora, como meu infeliz coração que sangra novamente depois de tantas cicatrizes.
Mas o que eu sentia era tão bom que eu me deito ao lado dos corpos queimados e abraço forte ela. Agora quase reconhecível. Sua beleza não se apagou, ela ainda está inteira, e ainda está viva, eu posso sentir seu calor arder em mim agora, sinto minha pele e meu rosto derreterem e meio a sua paixão. O cenário arde em chamas, mas nós dois ardemos em paixão. Minha felicidade vai embora deixando um grande buraco. E meu coração sangra mais uma vez sem ter o que abraçar. Meu braço treme de tanto medo dessa escuridão que agora será minha companheira pro resto da vida. O que eu vive?
Nada. Nada pode mudar o que aconteceu. Meu corpo ferve e derrete, ah meu bem, grudaremos eternamente. Não posso fazer mais nada além de ficar aqui sentado observando o buraco onde ficava meu prédio favorito. A felicidade me abandonou, até ela fugiu de mim. E ela... ela me disse o nome dele. Eu não lembro, não lembro nem o meu nome. Nem nome eu tenho. Não vivi nada, tudo um ilusão esquizofrênica de minha mente, era tudo um buraco enorme, mas eu sinto meu coração sangrar depois de bater tão forte e rápido. Isso foi real, o meu sofrimento foi real. Minha dor foi real, tão real quando a mentira de uma vida feliz prometida pra mim. Uma terra miserável, que restou só cinza, nenhum homem além de mim ousa pisar. É minha terra prometida, meu buraco particular, minha felicidade indo embora. Ela me disse o nome dele. Não ela não me disse. Mas eu sei. Ausência de medo. Ausência de amor. Ausência de vida. Eu não estou vivo. Só estou procurando minha cova.

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