Sozinho com Niguém


As pessoas necessariamente nascem para morrer. Algumas vivem intensamente esperando o dia chegar. Outra nascem já morrendo. Nascem como outras quaisquer. Mas desde o inicio de suas vidas, perdem. Vejo o tempo passar de um lado para outro sem mover um dedo se quer, deitado na minha cama observando a paisagem do teto eu vejo o tempo passar e voltar de novo, vejo todos indo embora. Vejo as coisas que me empolgam e me excitam presas na minha garganta. Vejo os gritos de alegria e o longo desabafo que não posso mais ter. Palavras agoniadas na garganta me fazem vomitar cada vez com mais vontade. As coisas aos poucos vão mudando e o que era um grande ciclo de amizade se torna seu maior desespero, as coisas bobas que não pode mais falar, não tem mais com quem conversar ou com quem desabafar. Até os textos carismáticos e envolvidos de sentimentos se tornam vazios em ciclos viciosos da própria solidão e carência.
Cercado de carinho e proteção, preso em um mundo onde não pode falar ou dizer qualquer palavra. As conversas medidas rigorosamente, as tentativas desesperadas de desabafar são impedidas. Uma troca rápida de assunto e você percebe que as pessoas são diferentes... são diferentes de você e está sozinho. Está totalmente sozinho, sentindo o frio e a falta de ar...
Então você escreve todos seus sentimentos e ninguém se importa, ninguém lê ou ouve. Você diz os entender enquanto pedem para que você os veja e de novo você percebe que está sozinho, apenas você e a sua maldita musica sobre solidão. Apenas você e o seu frio incondicional que atormenta sua cabeça nas viagens para profissionais que tentam te ajudar, que são pagos para te ouvir, mas no final está sozinho... estamos sozinhos. Afundado nas minhas palavras sem sentido algum a proclamar, sem emoção a sentir. Apenas eu e minhas palavras. Apenas eu e meu mar de textos inúteis sobre sentimentos inúteis que ninguém se importa. Um rio de lágrimas não choradas em forma de palavras. Um choro de solidão e sufoco. As musicas tocando ao fundo se misturam com toda a agonia das palavras que você é proibido de falar. As pessoas desviam de você, sem poder desabafar você está sendo ignorado enquanto fala. Não a resposta alguma. E você vê que novamente está sozinho. Digo o que quiser, o que eu sinto e o que eu vejo, sem me preocupar com quem ouve ou lê. Pois ninguém me ouvira.

Deixa o buraco queimar que é melhor pra nós dois.


Hoje mal pude me identificar, mal pude ficar de pé. A felicidade veio a tona, tomando meu peito, eu até ouvia meu coração bater. A felicidade foi embora na mesma velocidade. Meu dia mais ensolarado, mais encantado... eu o observei queimar e se desintegrar deixando um grande rastro de fumaça. Mal lembro o nome dos meus amigos e as idades de minhas irmã. Nem mesmo quem eu sou eu sei. O lixo andando lá fora pela rua, o vento faz rodar a poeira e eu não sei o nome de nenhum deles. Eu lembrava do brilho no olhar dela, seu corpo magro e pequeno encolhido no meu corpo, tão frágil. A grama alta e os prédios altos do outro lado da rua, eu a apertei muitas vezes para acreditar que era real. Eu me senti feliz, mas a felicidade tem movimentos traiçoeiros, iludido por uma imagem na minha mente. Crente de uma impureza. Esperando ser salvo, quase sem ar. Vejo agora o abismo imundo e sujo onde ficava a minha praça favorita. Eu não reconheço os corpos queimados nem os cenários distorcidos, eles eram bonitos, mas não eram reais. A felicidade correu de mim como a água corre para o mar. Eu não atraio mais eles. Minha feiúra é ímpar. Com desprezo ela corre de mim. Ainda sinto o amor dela e o cheiro doce dela, mudei minha vida e minha cultura por uma mentira. Um mentira real. Uma realidade que não consigo abandonar. Com tanto remédio eu espero voltar a dormir e sonhar novamente com isso. Esse sabor doce e molhado que rodeia meus lábios. Vejo um buraco de uma bomba nuclear onde ficava minha felicidade. Escurecida e nublada agora, como meu infeliz coração que sangra novamente depois de tantas cicatrizes.
Mas o que eu sentia era tão bom que eu me deito ao lado dos corpos queimados e abraço forte ela. Agora quase reconhecível. Sua beleza não se apagou, ela ainda está inteira, e ainda está viva, eu posso sentir seu calor arder em mim agora, sinto minha pele e meu rosto derreterem e meio a sua paixão. O cenário arde em chamas, mas nós dois ardemos em paixão. Minha felicidade vai embora deixando um grande buraco. E meu coração sangra mais uma vez sem ter o que abraçar. Meu braço treme de tanto medo dessa escuridão que agora será minha companheira pro resto da vida. O que eu vive?
Nada. Nada pode mudar o que aconteceu. Meu corpo ferve e derrete, ah meu bem, grudaremos eternamente. Não posso fazer mais nada além de ficar aqui sentado observando o buraco onde ficava meu prédio favorito. A felicidade me abandonou, até ela fugiu de mim. E ela... ela me disse o nome dele. Eu não lembro, não lembro nem o meu nome. Nem nome eu tenho. Não vivi nada, tudo um ilusão esquizofrênica de minha mente, era tudo um buraco enorme, mas eu sinto meu coração sangrar depois de bater tão forte e rápido. Isso foi real, o meu sofrimento foi real. Minha dor foi real, tão real quando a mentira de uma vida feliz prometida pra mim. Uma terra miserável, que restou só cinza, nenhum homem além de mim ousa pisar. É minha terra prometida, meu buraco particular, minha felicidade indo embora. Ela me disse o nome dele. Não ela não me disse. Mas eu sei. Ausência de medo. Ausência de amor. Ausência de vida. Eu não estou vivo. Só estou procurando minha cova.
 
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