Restos.


Existe um motivo para eu não começar muitas conversas. Eu tenho atenção de sobra para dar. Eu tenho dedicação em abundancia que não se acha em nenhum outro lugar. O que não corresponde a nenhum outro ser que me acompanhe. Verdade seja dita, isto é mais um desabafo moribundo, um desejo violento de ser visto. E como todas minhas tentativas de ser visto, eu sou ignorado. Não passo do amigo legal que vai dar apoio quando todos te largarem. Não passo do abraço quente quando estás sendo ignorado(a). Não passo do sexo quando não há mais quem te queira.
E apenas isso eu sou. A última opção, aquilo que você quer quando te sobrou ninguém. Exatamente isso que eu sou: ninguém. O ser invisível que observa a sociedade evoluir calorosamente em completa sincronia com a babaquice. Sou aquele bullying acessível, que não vai revidar por se importar de mais com a dignidade humana. Sou aquela criança que vai engolir o choro para deixar você aliviar seu estresse. Que vai fingir que é uma pedra só para você se sentar sobre. Eu quem vou ficar o dia todo esperando uma palavra tua, mas hoje você tem atenção, não precisas de mim. Nem um pouco.
Não há quem precise. Eu sou aquele ser desnecessário quando se tem alguém para amar. Sou aquele ser descartável quando se pode abraçar e beijar alguém. Sou aquela alma cinza que passa despercebido pela multidão.
Sempre soube que minhas cicatrizes me trariam problemas. Sempre soube que as feridas afastariam os felizes homens que em terra habitam. Eu não tive escolha, não foi minha intenção abrir tantos cortes no meu peito. Mas eu sabia no que estava me metendo. Quando me jogaram para o abismo e eu olhei para baixo... Eu sabia o quão solitário e profundo eu estaria ali. Eu sabia o quão sozinho eu ia estar hoje. Você descobre que não pode voar. Você se joga do prédio, mas descobre que não pode voar. Que não vai para um lugar feliz. Você só ganha mais e mais feridas. Mais e mais cicatrizes. Você tenta evitar, mas você não consegue mais se jogar em qualquer relacionamento. Você se fecha totalmente, mas qualquer luz você abraça, qualquer calor e interação, você deseja. Não dá para se fechar assim quando se importa, não da para ser uma muralha quando você pode amar. Mas agora você é um salto mortal para o final, não existe amor que segue para você. Não há mais nada disso.
Você é agora só o conhecido carente que pode ser chamado quando alguém se sentir sozinho. Você não é mais e nunca mais será uma opção. Você é sobra. Resto definhado do ser que um dia já foi.
Uma massa descolorida e deformada por todas as cicatrizes que se fez trancado no banheiro. Você é cinza e desidratado porque não há mais lágrimas, não há mais emoção ou adrenalina. Você é uma caixa vazia que se enche com qualquer mentira que te contem.
Eu não sei mais se consigo aguentar. As vezes eu fico pensando que não sou mais ou mesmo. Antes eu era triste, verdade. Agora eu sou só vazio.
 
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