População de ninguém


Eu procurava sentir o máximo de coisas que eu pudesse, pois queria ser como todas as pessoas, queria ser tão vivo quanto elas, era o que mais queria, ser humano. Mas quando me tornei um vi que não era o que eu queria, a dor que sinto por estar no meio das pessoas é pior do que quando estou sozinho no meu quarto pensando na vida como ela foi feita para ser. Me pergunto muitas vezes porque me perdi de tudo, menos do que mais me dói. Vejo as pessoas passando por mim, vejo as pessoas se aproximando e se aconchegando, vejo elas sorrindo e seus olhos brilhando, mas não é como deveria ser, não estou sorrindo ou me aproximando... estou inerte com uma terrível feição tristonha. Meu coração se vai com minha alma cada dia que se passa tão distante daquela que mais desejo. Não a distancia que separa minhas mãos das dela, mas da distancia que separa seus pensamentos de mim e me aproxima cada vez mais os meus dela.
Sem mesmo um pingo de vontade de viver. Sem mesmo uma fatia de vida para se viver. Minha alma vai se dissolvendo em tristeza, tantos rostos ao meu redor e nenhum é ela. Nenhum deles é o que eu quero ver.

Faixas e cartazes pendurados no meu rostro, demonstrando toda infelicidade que passei por esses anos, pedindo para que apareça e me leve para esse mundo, mesmo que em chamas. Faixas e cartazes que penduram a forca na qual me prendi e me joguei. De repente o dia vira noite quando a vejo em meu pensamento, meu desejo de apagar com seu toque escurece todo o mundo, escurece toda a vida. Lembro quando te via muitas vezes, lembro quando te admirava por tanto trabalho, lembro quando nos prometemos ser leais. Ainda posso ouvir seu choro cantarolar por aí no vazio das lembranças. E cada vez que sua voz reproduz algum som, minha alma diminui e o vácuo no peito aumenta. Meu pessimismo tem certeza que você não irá voltar e é por isso que procuro aqueles olhos brilhantes e aqueles sorrisos contagiantes, mas nunca estive tão sozinho, nunca vi tantos rostos, que estão tão vazios aos meus olhos. O tempo vai passar, eu sei que passará, mas a cura da saudades não é o tempo, a cura para a saudades não é fingir que não lembro. Pois de você eu lembro, de verdade eu lembro, de verdade eu sei como foi. Não me adianta esperar, mas mesmo assim espero. Não me adianta procurar, mas mesmo assim eu procuro. Atingir minha cabeça com o tiro nunca foi meu objetivo, sempre quis ameaçar suas imagens para que saiam. E cada vez vejo mais que morrerei com você no meu coração, ocupando todo aquele espaço que estava reservado para minha vida, vejo que os órgãos não serão o bastante e os músculos nunca serão forte o bastante. Uma historia dramática escondida das pessoas que me rodeiam hoje, a miséria do sorriso que todos contemplam.

Silenciado por si mesmo


O silêncio nunca foi opcional. Não escolhi me emudecer diante dos fatos da vida. Mas no mundo de hoje, aqueles que se calam, são os sofridos incompetentes. A discriminação é baseada simplesmente por ser uma pessoa fechada, esquecendo que o silêncio é o sintoma da minha vida sofrida, o silêncio são todos os tiros dados à meus olhos, todos os cortes de espadas desafiadas. A crítica nada mais é mais um motivo para me calar e esperar que você faça o mesmo, pois as dores trazidas das passagens de uma vida curta não é exatamente o que procuramos achar, conduzindo a lâmina afiada de nosso ego em nossas mãos. É preciso sentir na pele o que se pode ver nas cicatrizes de meus punhos, é preciso ter o mesmo punhal perfurando meu rosto que um dia foi belo, é preciso disso, e apenas disto, para que você se cale junto a mim quando eu me calar. Não sou um radicalista, nem um homem sábio, muito menos um poeta, pois já provei isso escrevendo sobre a minha dor silenciosa, eu apenas quero entender e fazer minhas questões sem precisar falar, pois não posso dizer uma unica palavra já que todas essas foram arrancadas de mim com a brutalidade do destino e das pessoas que sempre me rodearam. Sem rumo ou se quer sem um sentido eu sou criticado, justamente, pois tenho noção de que já não faço mais tanta parte desse mundo. Meu suicídio hoje foi direto, diferente da minha voz, que parece não querer sair pela minha própria boca.
Emudecer a um todo com meu silêncio é cruel de mais, mas o meu suicídio não me permiti pensar nas pessoas. Eu queria poder enxergar mais uma vez, queria poder ver o Sol nascer e comentar mais uma vez o quanto isso é belo, porem, a beleza não chega até a mim. A beleza se foi com o mundo que me foi dado, que se apagou e se escureceu.

Não sou capaz de chorar, também, pelas pessoas que se foram com o mundo que se desligou, não as conheci, era novo de mais, porque quando se sofre, percebe-se que sempre se é novo de mais no dia anterior. Não há nada a se perder quando o seu corpo e alma foi jogado às margens da sociedade. Não há mais nada a se fazer para revigorar sua dor sem sentido. O silêncio é a única coisa que se tem no momento, e a vontade de desabafar, ela existe, mas nunca se realizara. Pois é mais forte que você, tudo é mais forte que a dor que se sente, até mesmo a vontade de morrer é mais fraca do que a dor, os motivos para se cortar somem. Os cortes viram apenas metas e lembranças, as marcas perdem a explicação. O silêncio vira aquilo que te define, o vazio vira aquilo que você se torna... E amanhã... eu sei que nada melhorará.
 
|  Cores em cinza. Blogger Template Powered by Blogger