Quando esquecem


Senti o doce sabor de ser esquecido. Não, não é doce. Desceu rasgando minha garganta. Deixou um sabor amargo, parecia indiferença, mas era ódio. Deixou, também, o aroma de fumaça, aroma de papel queimado. Aquele papel no qual escrevi nossas vidas inteiras.

Devem estar se perguntando do que estou falando. Estou falando de você se dedicar a alguém e esse alguém não te notar. Falo de imaginar seu dia com alguém e ele se calar, não sabiamente, mas rancorosamente. Sou esquecido e adorado, minha vida inteira foi assim. Não posso recorrer ao meus próximos porque estão longe. Não posso recorrer aos meus amores porque nos odiamos. Aos meus parentes? Somos ligados pelo sangue de coração que não bate. Estou sozinho na ausência de palavras. Na minha mente cometo milhões de vezes esse pecado. Não consigo mais imaginar outra coisa. As vezes o prédio do qual me jogo é diferente. E o carro as vezes muda. Quando faço uma viagem vejo todos meus amigos sentarem ao meu lado no banco do ónibus, vejo todos irem e voltarem sem falar nada. Todos tem uma cara triste, todos chorão encima de caixão sem corpo ao lado de uma cripta com meu nome. Todos choram na minha presença.
Minha garganta coça e arde. Não... Não é a garganta. É meu coração ou algo que fica ali perto. E alguns daqueles que fingem que não me esqueceram falam em coro que é da minha cabeça. Mas minha cabeça não doí. Paro e penso, imagino o quantos amigos que tenho. Fico feliz de novo por ter tantos. Mas eles estão de costas. Estão conversando sobre suas coisas com outras pessoas. São apenas desconhecidos que estavam atravessando rua quando abri os olhos. Vejo que a escuridão volta.

Então tiro meus sapatos e dou um passo para frente o vento bate forte no meu rosto, me sinto abraçado pelo vento. Vejo uma luz. É só um caminhão. Um atrito forte com o chão depois o peso de pesadas rodas passando por cima de mim. Abro os olhos. Então tiro de novo meus sapatos...
 
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